segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Para comerte mejor- humor erótico de Candelária Silvestre - 23 de outubro na Galeria!




o microscópio e a luneta


assim, como no meio do nada (sempre em paisagens onde o gesto da "cande" deixou um rasto de pasto ou cortadeiras, de terra molhada ou charcos de lama, mangues ou lodazais) surgem estáticas estas figuras ambíguas de mulheres com pinto, (ou homens com seios conforme o gênero a observar) absolutamente sozinhas mas sempre pousando para um observador que certamente é a artista que as retrata e, se estamos observando esta perturbadora cena, é porque ocupamos agora exatamente a posição que ela ocupava quando as pintou.


assim frente a estas telas, cujo tamanho facilita a imersão do observador e cujo realismo fantástico permite acreditar nelas, entrar nelas, conviver e quem sabe se apaixonar porque uma mulher nua é sempre atraente e neste caso, por uma via enviesada, ao aproximar a mão para enfiar o dedo numa vulva úmida estaremos encostando a palma no pau que elas ostentam com certo ar natural, desavisadas e ingenuamente naturais.


penso estar nessa surpresa a intenção destas pinturas, na terra que treme, no chão que cede, no equilíbrio que desaparece e nos deixa também nus, procurando a nossa identidade que por um momento desapareceu.


menudo papel este que cabe à arte que candelaria provoca com uma pintura que parece enfatizar o ambíguo, desequilibrar o nosso olhar e a nossa emoção com recursos pictóricos apurados onde convivem o despojamento de traços casuais violentos e rítmicos dos fundos com o delicado tratamento do corpo humano, emprestado da cultura pop mas com um certo olhar renascentista, um sexo que parece outro como nestas grandes telas; um conto de fadas delicadamente sensual ou descaradamente pornográfico como o narrado na lingerie da coleção "humor erótico".


disposta a criar um alvoroço que haverá de durar uma semana, em sampa, candelária silvestro mostra simultaneamente dois extremos de sua produção recente: os grandes formatos das telas, expostas na sala da funarte, e as cenas pintadas com delicada maestria em lingeries e telas de pequeno formato em lamínima galeria.


ambas trazem a marca inconfundível de seu traço e parecem feitas para confundir o observador, tirá-lo do massacre do cotidiano para levá-lo ao reino da fantasia, do onírico, a um mundo poroso que pode nos abrigar ou onde podemos nos refugiar mesmo sem saber se as ameaças e os temores (ou prazeres) que o lobo mau de pau duro provoca, a olho nu, podem ser observadas no microscópio ou devemos usar uma luneta, somos origem ou resultado destes devaneios, éramos antes ou somos depois destas obras e, o que, exatamente?


os deslocamentos do olhar para acertar o foco ou corrigir a mira na busca de uma resposta a essa pergunta que estas pinturas provocam, não apenas pelos formatos tão díspares nem pelos suportes tão desiguais mas pelo sadomasoquismo (uma palavra forte mas não achei outra tão apropriada e contundente) que evocam e parece subjazer nelas, instigam uma reflexão tão própria da arte quanto "antes, despues" o poema de julio cortázar que cito, aqui, no original:









Como los juegos al llanto


como la sombra a la columna


el perfume dibuja el jazmín


el amante precede al amor


como la caricia a la mano


el amor sobrevive al amante


pero inevitablemente


aunque no haya huella ni presagio





aunque no haya huella ni presagio


como la caricia a la mano


el perfume dibuja el jazmín


el amante precede al amor


pero inevitablemente


el amor sobrevive al amante


como los juegos al llanto


como la sombra a la columna





como la caricia a la mano


aunque no haya huella ni presagio


el amante precede al amor


el perfume dibuja el jazmín


como los juegos al llanto


como la sombra a la columna





assim ficamos, candelária, "las huellas que dejan tu pintura" e o presságio que anunciam, muito tempo haverão de demorar, por aqui, para serem esquecidas.


miguel paladino, setembro 2018








quinta-feira, 21 de junho de 2018

JC, um modelo para armar com Miguel paladino, Domingo dia 24!





Encontro que apresenta e celebra a obra de Julio Cortázar coordenado por miguel paladino em la mínima galeria. Uma iniciativa do cronópio gustavo galo que alistou seus amigos para assistir a performance do paladino que fará ouvir gravações, músicas, leituras e assistir filmes e documentários sobre a obra deste autor considerado por muitos como um dos melhores das letras castellanas ou da língua espanhola como é conhecido o idioma de Cervantes no brasil.

contribuição consciente: O evento não tem preço fixo nem é de graça, vamos cuidar de todos e valorizar a contribuição de cada um.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Luz Marina na galeria

A imagem pode conter: 1 pessoa, atividades ao ar livre e água


Luz Marina irá apresentar seu novo trabalho: Chama. nesta noite será servido também um caldo especial: Caldo íris.

data: cinco de maio 20hs
ingressos: $30 com caldo íris

bebidas a parte

segunda-feira, 16 de abril de 2018

jardim al sur - obras de viky vitas y pitico vulliez




abertura 14 de março / 19hs


exposição até 13 de abril de 2018


lamínima galeria






Somos artistas que trabalham com uma linguagem análoga.
gestuais
matéricos
Gostamos das formas orgânicas, da vegetação frondosa,
das flores proibidas,
A temperatura dos bosques,
o lodo,
suas umidades
Barro,
texturas,
bulbos,
fluidos.
O aroma da terra molhada,
esse tapete fulgurante que o orvalho insinua.
(P.Vulliez e V.Vitar)

lamínima galeria
av pedroso de morais 822/pinheiros_ SP


Informações
Facebook (La mínima galeria)
lagaleriaminima.blogspot.com
agendamento de visitas (11) 3578 0003


Miguel Paladino
curador residente



o sul: um arquétipo
No imaginário portenho, o Sul é símbolo de auspiciosa generosidade. A bravura e a coragem que ali imperam são, antes que valores de seus habitantes, predicados de un modo de ser, uma rara qualidade onde a mitologia conta com heróis de carne e osso, um punhal no cinto, uma cicatriz no rosto, compadritos cultuados por borges com a admiração e a inveja do intelectual resignado à sua biblioteca e ao seu jardim*

De um dos pátios ter olhado
as antiguas estrelas,
do banco da
sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim e da madressilva,
o silencio de um pássaro adormecido,
o arco do saguão, a umidade
- essas coisas são, talvez, o poema.
.........................................................
* "sul" JLB, in fervor de buenos aires

Cantado em inúmeros tangos e referido em poemas épicos que podem remontar aos pampas de fierro ou àquele "paredon y después" (de homero manzi) com a sua "luz de almacén" foi atualizado na década de 90 no rock de charly garcia que diz ser da "cruz del sur, aquele que fecha e apaga a luz".
O termo que descreve uma constelação visível apenas no hemisfério homônimo é, ou pode ser, também uma sina, o castigo que toda cruz encerra, el sur es una cruz, sim, mas tambem pode ser uma cumplicidade e motivo de orgulho como para torres garcia quando inverte o mapa da américa ou nos tangos de cortázar, escritos na europa, quando diz ter saudades de la cruz del sur, el mate amargo... etcétera, etcétera.
Para somar nas referencias vale uma menção (inevitável) a SUR, emblemática revista dirigida por Victoria Ocampo que publicava textos e critica literária de autores como Alfonso Reyes, Borges e ate Cortázar, e cujo nome remete ao culto que "el Sur", sempre mereceu na cultura portenha.
Tenho para mim que os autores de Florida cultuaram, sempre, os de Boedo e que a recíproca não é verdadeira mas isso é uma outra história...

jardín al sur

este "jardín" que pitico vulliez e viky vitar encenam em la mínima com um conjunto de obras de extrema qualidade artística está "ao sul" não "no sul" nem podemos dizer que seja "do sul", mesmo estando em são paulo.
"jardim ao sul" significa ou pode significar algo distante geograficamente (para artistas do norte e do nordeste argentino como eles) mas também e ao mesmo tempo, uma qualidade que recebe a herança dessa mitologia portenha, "su buena gente, su intimidad".

Do cruzamento desses componentes da cultura argentina é feita a matéria desta exposição, doses certas de água e terra que resultam no barro elemental que pitico modela, a delicada aquarela de vicky cujos pigmentos traçam arabescos, linhas que parecem buscar o além, algo que só pode ser encontrado "ao sul" mas não do mapa e sim de nós mesmos.

paladino


Os artistas com a palavra
Juan (pitico) Vulliez

Tenho especial interesse pela exploração sensível do espaço através de formas orgânicas
Arame, fio, barro...
Objetos em permanente tensão entre o plano e o volume.
Matéricos,
frágeis,
sutis.


CV BREVE / Pitico Vulliez

Nasceu em 24 de junho de 1968, Colón, Entre Ríos. Mora e trabalha em Buenos Aires.

EXPOSICIONES INDIVIDUALES:
2016: "La morada de las plantas", Jardín Botánico de Buenos Aires Carlos Thays
2013: "Escondrijo", Tramando de Martín Churba.
2010: “El dúctil esfuerzo de evitar la caída", Galería Central de Proyectos.
2005: "Dibujos y Objetos", Galería de Arte Juana de Arco.
COLECTIVAS
2014: "Fragilidad", Embajada Argentina en Paris, Francia. "No man is an island",
UntitledBcn Gallery, Barcelona, España.
2013: "Poética de los sentidos", ABRA Galería, Tandil, Buenos Aires.
2012: "Ensueños Naturales", Museo Munt, Tucumán. ArteBA, Galería Central de
Proyectos.
2008: "En Estado Natural", Galeria de Arte Bacano. Galería de Arte Javier Baliña.
Muestra colectiva.
2007: ArteBA, Galería Juana de Arco. "HOY", Galería de Arte Juana de Arco.
2006: "Golondrina", C. C. Alberto Rouges, Tucumán.
2004: “Objetos y Dibujos", Galería de Arte Jardín Oculto.

FORMACIÓN:
Autodidacta.
2011-2007: Pintura, Sofia Huidobro.
2006: Joyeria, Osvaldo Borras.
2005: Filosofia y Arte en el C.C.Ricardo Rojas, Lucas Soares.
2004: Historia del Arte Argentino y Latinoamericano, Laura Batkis.
2003: Clinica de obra, Jorge Gumier Maier.
2002: Escenografia, Gaston Breyer.
2001: Clinica de obra, Juan Doffo.
1996-1993: Escultura, Juan Calcarami.

Viky Vitar
Como un brote nace la mujer-planta.
La línea-liana aflora en papel, tela y pared.
A veces fría, se congela. A veces caliente, arde.
La tinta fluye avivada generando nuevos retoños que quedan rodeados de
vacío. Se enrosca y retuerce. Mana de una boca como palabras que no
acaban de entenderse. Se enreda en semilla-flor.
mujer - depósito
mujer - brotada
Silencioso hueco de verano.
Las extremidades se prolongan en el desconcierto, hacen crecer la hoja.

CV BREVE / Viky Vitar
Nació en 1979. Formada en la ciudad de San Miguel de Tucumán, en la
Facultad de Artes de la UNT, donde cursó el tallerC. Becada para realizar las
clínicas de obra organizadas por la Fundación Antorchas con Gumier Maier y
Claudia Fontes en el 2000 y con Pablo Siquier y Graciela Sacco en el 2001. En
el 2003 se radica en Buenos Aires, donde realiza clínica de obra con el artista
Tulio de Sagástizabal (2006). Convocada a participar del Proyecto Pac/
Prácticas Artísticas Contemporánea, Galería Gachi Prieto, Buenos Aires
(2013). Seleccionada para el libro Malos Pensamientos (2008), Ilustración
Argentina Contemporánea. Producción, curaduría y participación PROYECTO
VITRINA, Buró Arte Tucumán, junto con Florencia Vivas año 2015/2016.

Exposiciones individuales:
2000: “Arte a Domicilio”, proyecto de intervención en una casa abandonada
(Tucumán).
2006: “Violencia Natural”, Galería de Arte Juana de Arco, BA.
2008: “Camino al infiernillo” galería Baltar contemporáneo, Mar del Plata.
2014: “Tu miedo de la infancia fue fértil”, proyecto Tucumán pinta, Espacio
Tucumán en Buenos Aires.
Colectivas destacadas:
2014: “Fragilidad”, Galería Argentina, Embajada Argentina en Francia, París.
No man is an island, Galería Unttitled, Barcelona, España.
2013: “Ensueños naturales”, MUNT, S. M. Tucumán. Edición limitada, Galería
Mar Dulce, Buenos Aires.
2012: “Turismo Aventura”, con el Grupo El Ingenio, Gal. Mundo Dios, Mar del
Plata.
2011: “Es o no es el sueño que soñé antes del alba”, con el artista Sandro
Pereira, C.C. Virla, Tuc.
2007: “Hoy”, Gal. Juana de Arco , Bs.As. Pinamar +arte, Pinamar, curada por
Maxi Jacoby. La Casona de los Olivera , selección de artistas, C.C. Recoleta,
Bs As.
2005: “Flores del Jardín”, Museo Pcial. Timoteo Navarro, Tuc.
2004: “La recolección”, ArteBA , MALBA –Bs As. (2004). “Muestra
Golondrina”, organización y curaduría, C.C. Rouges.


para quem não conhece

**Sur, tango de Homero Manzi
Sur,
paredón y después...
Sur,
una luz de almacén...
Ya nunca me verás como me vieras,
recostado en la vidriera
y esperándote.


No voy en tren, voy en avión / Charly Garcia
No voy en tren, voy en avión
no necesito a nadie
a nadie alrededor.
Por qué no hay nadie que mi piel resista,
por qué no hay nadie que yo quiera ver.
no veo televisión ni las revistas
no veo ya nada que no pueda ser.

Por eso yo no voy en tren, voy en avión
no necesito a nadie
a nadie alrededor.
Cuando era niño nunca fui muy listo
tocaba el piano como un animal
yo se que algunos piensan que soy mixto
pero yo tengo personalidad.

Yo soy de la cruz del sur
soy el que cierra y el que apaga la luz
Yo soy de la cruz del sur
aquí y en everywhere.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Sob o Céu do Brasil - objetos de Juvenal Pereira





abertura: 24 de nov 20h






algum paralelo há de existir entre o tamanho destas obras e o da galeria, além de estarem ambas sob o céu do brasil e serem recortes de um vasto mundo que cada vez mais nos cobre de incertezas, nuvens passageiras e brilhos de estrelas distantes que talvez não mais existam. que não há nada de novo entre o céu e a Terra deixou de ser verdade posto que vivemos imersos em um mundo de novidades e o futuro nos espanta. mas cá está a obra de juvenal pereira que, como bom mineiro naquele mar de morros, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. na voragem do quotidiano, ele propõe uma pausa para um olhar "atento e concentrado" como disse evandro nicolau, no corredor da nossa galeria que parece ampliado pelas imagens e a memória que elas evocam. instaladas de modo a flutuar no suporte que as emoldura, as fotos documentam a longa trajetória do autor enquanto as relíquias de um desastre ambiental de 5 11 15 (um dos maiores da historia da humanidade) alertam para as barbaridades de que o homem é capaz quando movido pela formula suicida de lucro desmedido e descaso ambiental: para não esquecer.


miguel paladino/curador residente


Algo a dizer Sob o Céu do Brasil


Evandro Nicolau / Museu de Arte Contemporânea de São Paulo









A imagem existe a partir de um recorte, de uma ação de colher, de retirar uma porção visual dos fenômenos da existência. Tanto assim que chamamos, no linguajar popular, o ato de fotografar de “tirar uma fotografia”, no sentido formal de extrair parte do que observamos no espaço para que seja transformado em imagem. Imagens são produtos da memória, do passado e ao mesmo tempo se lançam como utopias futuras ao tocarem a imaginação e ao propor rupturas com a observação prosaica do presente. Imagens são pensadas e construídas como linguagem. É a partir da plena consciência dessa ação de construção da imagem que o trabalho Sob o Céu do Brasil de Juvenal Pereira apresenta uma rica memória visual de suas ações de “tirar imagens” do mundo. Ao reduzir as fotografias e também as pequenas esculturas que fazem parte desse grande conjunto de objetos, Juvenal emoldura um espaço de imaginação e poeticamente nos leva a uma observação comedida, atenta e concentrada no trabalho. Uma porção de memória, uma porção de ideologia e uma porção de utopia se amalgamam em objetos artísticos que em sua natureza diminuta se ampliam ao tocar o olhar, o pensamento e o coração do espectador.


sobre o autor


Juvenal Pereira nasceu em 1946 na cidade de Romaria-MG. A partir de 1970 atuou durante cerca de quarenta anos como reconhecido fotojornalista para vários dos mais importantes jornais e revistas do Brasil, como O Cruzeiro, Veja, Isto É, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.


Foi um dos mentores da criação do Mês Internacional da Fotografia em São Paulo; representou o Brasil no Mois de la Photographie em Paris em 1992.


Com exposições em diversos museus, seus trabalhos fotográficos são atualmente parte de importantes coleções privadas e públicas, como a coleção do MAM Museu de Arte Moderna de São Paulo ou a Coleção Pirelli MASP.


Entre 2010 e 2014, cursou diversas disciplinas no Programa Universidade Aberta da Terceira Idade na USP Universidade de São Paulo, período em que criou performances, instalações, curadorias e palestras. Participou de coletivas brasileiras e internacionais.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Christiano Whitakes / decolagem_dapintura




apresentação miguel paladino (curador residente)




DA COLAGEM




No primeiro manifesto do Surrealismo. André Breton referia-se à colagem1 “inventada” por Max Ernst em 1933 (a célebre SEMANA DE BONDADE2) como “uma proposta de organização visual absolutamente virgem”, sem deixar de dizer, ao mesmo tempo, que correspondia, em termos de poesia, ao que buscaram Lautréamont e Rimbaud.

Ernst, por sua vez, afirmava que René Magritte, outro notório surrealista, era autor de inúmeras “colagens pintadas à mão”.




Na América Latina coube a Leon Ferrari emular esses procedimentos com uma carga de critica política à Igreja e aos regimes militares por meio de colagens e ready mades, e à moral católica e bons costumes em parahereges, onde cenas bíblicas convivem com o Kama Sutra.

Richard Hamilton (AS CASAS DE ONTEM) na Inglaterra e Warhol (SOPA CAMPBELL) nos Estados Unidos se encarregam de trazer a colagem para o mundo industrial pela técnica da serigrafia, ou de levar o mundo da indústria para dentro da colagem com um misto de crítica e elogio próprios da estética pop.

Neste universo navega Christiano Whitaker, acrescentando a suas colagens um toque de humor carioca, para circunscrevê-lo geograficamente, e um certo humor negro, para defini-lo temporalmente. Alguns dos nomes evocam estórias que a literatura imortalizou, como a do rei que enfrenta adversidades da velhice (REI LEAR - Shakespeare) e da mulher que se lança nas águas tentando alcançar a lua (ISMÁLIA, Alphonsus de Guimaraens), ou da entidade que presidia aos funerais nos quais amigos ou parentes do morto cortavam os cabelos e os jogavam numa fogueira em honra à deusa infernal. (os gregos acreditavam que PERSÉFONE fazia reencontrar objetos perdidos, lemos no Google).

A Alice de Lewis Carroll e a Leda espartana representada certa vez por Leonardo são citadas tambem pelo artista como parte instigante desta iconografia literária feita de colagens de ideias. O nosso é um tempo de recorte e colagem, CTRL C CTRL V, de informação desenfreada e consumo exacerbado, e Christiano consegue transformar esses paradigmas em alimento da arte, seu próprio combustível. As embalagens e anuncios descartados vêm protagonizar uma galeria de personagens curiosamente inusitados que acabam revelando a origem do nosso tempo, dentro do qual nós tambem somos feitos de recortes e colagem.













1 As colagens e “assemblages” constituem uma expressão caraterística da lógica de produção surrealista, ancorada na ideia de acaso e de escolha aleatória, princípio central de criação para os dadaístas. A célebre frase de Lautréamont é tomada como inspiração forte: ‘”Belo como o encontro casual entre uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecção”.

A colagem é uma técnica plástica que supõe existir uma produção industrial gráfica (catálogos, revistas, folhetos, ) passivel de ser descartada, picotada, estiletada e que resulta na aplicação inusitada de recortes com um discurso quase sempre poético, aproximando elementos de origens diversas que começam a existir num mesmo campo visual com novos significados interrelacionados a favor das intenções do autor ou artista, aquele que está com a tesoura ou o estilete numa mão e a cola na outra.




2 Terceiro romance-colagem de Ernst - que já havia produzido “La femme 100 têtes” (1929) e “Rêve d’une petite fille qui voulut entrer au Carmel” (1930) -, “Uma semana de bondade” foi criada em 1933, auge do movimento surrealista, durante uma viagem de três semanas à Itália, precisamente ao Castelo de Vigoleno, cidade medieval da Emilia-Romagna. Recortando uma série de imagens de livros, jornais, romances e revistas populares na Europa desde 1850, o artista transformou entretenimento em uma ação de alerta e revolta contra os valores da época.

(http://mundocollage.blogspot.com.br/2010_06_16_archive.html).




Da pintura

Uma série de retratos e outra de ictiografias compõem este conjunto de pinturas de Christiano, apresentadas na galeria como uma sequência enfileirada lembrando um corredor polonês, em cuja travessia o visitante certamente haverá de apanhar. Mas o espírito curioso não quer passar rapidamente e sim, antes, deter-se na observação destes rostos extremamente expressivos, nos quais a angústia é superada pela surpresa que um ornamento ou prótese pisciforme pode provocar. Seres imaginários como aqueles descritos pelo Padre Zallinger em “Animais nos Espelhos”,(*) onde “el Pez era un ser fugitivo y resplandeciente que nadie habia tocado, pero que muchos pretendian haber visto en el fondo de los espejos” ou como a rémora (peixe que, na época das primeiras navegações ultramarinas, trnava mais lentas as caravelas).

Os nomes dos retratados guardam uma ambígua função, já que parecem identificar pessoas que realmente existem e, ao mesmo tempo, parecem nomear seres imaginários ou literários cujas biografias, em aberto, sugerem narrativas fantásticas. Mas nossa fruição pode tambem prescindir das legendas e apreciar a plástica e a elegância que estes bustos transmitem, e recuperar assim o ato da pintura no seu estado mais espontâneo e expressivo. De uma maneira ou de outra nunca seremos os mesmos depois de atravessar o corredor polonês que o artista montou no estreito da galleria, onde as cores, os olhares e as legendas parecem representar o eco do eco de um sentimento (**).







(*) El libro de los seres imaginarios de Jorge Luis Borges. / (**)Eco de Jorge Drexler



o mundo do atelier & o atelier do mundo

um percurso pelos corredores do amplo apartamento de Christiano em Copacabana é uma viagem em vários sentidos. A convivencia de objetos que o tempo foi acumulando é uma colagem da sua obra na arte da vida, ou da sua vida na obra de arte, ou qualquer outra combinação desses fatores que possa nos ocorrer aleatória e indistintamente. Um caos rigorosamente criado pelo artista aproxima estatuetas da Birmânia ou do Vietnam com fotos da familia, arte indígena e móveis marchetados; telas de amigos com esculturas chinesas e desenhos das netas - assim deve parecer o mundo a este inquietante artista: uma experimentação constante onde praticamente tudo é quase sempre possível ou onde quase nunca nada morre tudo. Convivência talvez seja o termo que melhor define a sua estética, assim como o espontâneo ou o improviso definem sua ética.




lista de 38 obras (30 na galeria e 8 no jardim)

Colagens

01. O Sonho- colagem s/cartão; 56 x 67 cm, 2015

02. Arlequim - acrílica e colagem s/cartão; 68 x 59 cm, 2011

03. Alice e o Gato - acrílica e colagem s/papel; 56 x 48 cm, 2009

04. Leda e o Cisne - acrílica e colagem s/cartão; 40 x 50 cm, 2010

05. O Namorado - acrílica e colagem s/papel; 45 x 49 cm, 2008

06. Maternidade - acrílica e colagem s/cartão; 68 x 59 cm, 2010

07. O Pregador - acrílica e colagem s/tela; 50 x 70 cm, 2016

08. O Grão Mestre- acrílica e colagem s/papel; 55 x 65 cm, 2016

09. Rei Lear - acrílica e colagem s/papel; 65 x 48 cm ,2010

10. Selfie - pastel aquarelável e colagem s/papel; 30 x 42 cm, 2016

11. Día de los Muertos – acrílica, pastel e colagem s/papel; 30 x 42 cm, 2014

12. Perséfone- colagem s/papel 40 x 50 cm, 2016

13. Miss Cartier- colagem s/cartão entelado; 30x46 cm, 2016




Pinturas

14. Nimrod – acrílica s/tela; 70x50 cm, 2015

15. Rei Peixe Rei– pastel seco e hidrográfica s/papel; 60 x 71 cm, 2016

16. Pescadora 1– pastel seco e carvão s/papel; 21 x 28 cm, 2015

17. Pontifex – acrílica s/tela; 42 x 39,5 cm, 2015

18. Pescadora 2– pastel seco sobre papel; 22 x 31 cm, 2016

19. Jonas – pastel oleoso s/papel; 42 x 30 cm, 2015

20. Koi – pastel seco e acrílica s/papel; 45 x 32 cm, 2015

21. O barqueiro – pastel seco e carvão s/papel; 42 x 30 cm, 2015

22. Diego - acrilica s/tela; 40 x 40 cm, 2015

23. Pequena figura- pastel seco e hidrográfica s/papel; 21 x 30 cm, 2016

24. Duas figuras - pastel seco s/papel; 31 x 32 cm, 2016

25. Gavril - pastel seco e grafite s/papel; 30 x 42 cm, 2016

26. Bento - pastel oleoso s/papel; 32 x 45 cm, 2014

27. O luminoso - acrílica s/papel; 32 x 45 cm, 2016

28. Airton - lápis de cera e acrílica s/cartão; 30 x 36cm, 2014




duas colagens

29. Ismália - colagem s/papel; 102 x 73 cm, 2004

30. Só se pensa - acrílica e colagem s/tela; 50 x 70 cm, 2016




Jardim da Galeria

31. O Cavaleiro 1 - acrílica sobre tela/44x60 cm; 2015

32. O Cavaleiro 2 - acrílica, colagem e hidrográfica s/tela/50x40 cm; 2016

33. Walther - pastel seco s/cartão/32 x 44 cm ; 2014

34. Rosazul - acrílica s/tela; 34x42 cm, 2016

35. Pensante/técnica mista s/papel / 31 x 39,5; 2016

36. Trindade - técnica mista s/ cartão / 50 x 40 cm, 2008

37. Chapeuzinho - técnica mista s/ cartão / 27,5 x 40 cm, 2008

38. Nekko - técnica mista s/papel / 36 x 46 cm






abertura: sábado, 25 de março, 2017 - 17h




la mínima galeria

av pedroso de morais 822 - pinheiros

agendamento de visitas pelo telefone 11 3578 0003




produção Camila Whitaker

montagem Miguel Paladino (curador residente)







Curriculum Vitae

Christiano Whitaker Nascido em São Paulo, 24/12/1940. Carreira Diplomática, 1967 a 2010. Nove postos no Exterior, dentre os quais os de Embaixador em Hanói (Vietnam) e Windhoek (Namíbia).

Estudos de pintura e desenho na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro), sob a direção de Orlando Mollica, e no ateliê de Fernando Zenshô Figueiredo.

Exposições:

Individual – Galeria Mezanino

Coletivas- Galeria Mezanino, Galeria Os Modernistas (Rio de Janeiro), Galeria La Mínima




















domingo, 27 de março de 2016

Lançamento do Cadeno de Ensaio no. 4 da editora Matéria Plástica.





“Gel” - ensaio fotográfico de Carlos Ebert

Este é o Caderno de Ensaio no. 4 da Matéria Plástica que sera lançado no dia 05 de abril de 2016 em la mínima galeria a partir das 19h30.

Editados desde julho de 2015, os "Cadernos" apresentam ensaios de fotografia, pintura ou desenho, feitos a partir do desafio aos artistas para desenvolver um assunto especifico no formato previamente definido de 15x21cm e 28 páginas.

Sobre "Gel" fala seu autor:

“Não tem a importância de um estado da matéria (ah... se fosse um plasma...). É apenas uma consistência: entre a geléia tremebunda da infância e a pasta de dente mais aguada dos tempos de dureza. Flagrei uma usuária checando um pote no super chingling do quarteirão. Quanto ela levantou o dedo da gosma branca, ficou um desenho, um arabesco pra lá de orgânico. Taí! Pensei. Paguei e levei o potão pra casa.

Primeira experiência: gelar e amornar para ver como a consistência mudava. Gelar ficou melhor. Segunda experiência: colocar num vidro e iluminar por baixo, e depois sobre um papel e iluminar por cima? Os dois eram interessantes. As formas resultantes permitiam uma infinita gama de projeções mentais. Eram orgânicas ao mesmo tempo que abstratas e até geométricas. Tinham a ver com os fractais de Mandelbrot. Iluminei com todo tipo de lâmpada, usei espelho, celofane e gelatina. Me diverti à beça.

Viajei demais e no final veio a indefectível frase do Wittgenstein: “Em arte não existe melhor assunto do que não ter nenhum assunto.” A dúvida aí estava no “em arte”. Mas isso não era minha parte nas ações. Fiquem com o gel.”

Carlos Ebert janeiro 2016


Sobre o autor

Diretor e fotógrafo de cinema, televisão e publicidade, carioca de 1946, Carlos Ebert estudou arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro e cinema na Escola Superior de Cinema São Luiz, em São Paulo. Desde 1970, dedica-se também ao ensino da fotografia para cinema. Foi fundador, primeiro Presidente e Vice-Presidente da Associação Brasileira de Cinematografia.

Carlos Ebert começou em 1966 como repórter fotográfico, tornou-se operador de câmera e diretor de fotografia em 1968 e diretor em 1970. No final dos anos 60, participou do cinema marginal e foi câmera e diretor de fotografia de um dos filmes mais significativos do movimento, O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, e em 1970, dirigiu República da Traição. Filmografia completa: http://carlosebertcinematographer.blogspot.com.br/2004/08/curriculum-vitae.html

serviço :

“GEL” de Carlos Ebert
projeto gráfico - Luis Jungmann Girafa
materiaplastica@gmail.com

Brasília abril de 2016

lançamento dia 5-04-2016 / 19h30
la minima galeria
822 av. pedroso de morais_sp
agendamento de visitas : 3578-0003 ou na página FB

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